terça-feira, 27 de julho de 2010

Beleza, poder e inveja


Não se assutem com o título, não estou escrevendo uma novela pro SBT. Só queria refletir um pouco sobre a mudança de atitude (principalmente dos outros em relação a mim) desde que inaugurei essa faceta, ser bonita.

Qualquer amigo(a) que ler isso pode até protestar que eu era bonita antes, mas não é verdade. Talvez tenha sido, na adolescência, mas minha insegurança era muita para que eu reconhecesse minha beleza, e fizesse proveito dela. Agora, é diferente. Não só me considero bonita, como faço parte daquele grupo (pouco popular) de pessoas que são bonitas e sabem disso. Melhor. Faço parte de um grupo de pessoas que são bonitas e sentem isso.

O mais interessante quando você se torna uma pessoa bonita sem antes ter sido é, sem dúvida, a mudança de atitude das pessoas que te conhecem. Eu não estou falando de um vizinho tarado que me espie de binóculo, mas de gente como a minha mãe. Minha mãe mudou em relação a mim; ela percebe minha autoestima aumentada, o fato de eu me vestir melhor e parecer mais bonita como uma vitória própria, com emoção. Ela me ama e quer me ver feliz, sem dúvida, mas minha mudança é como se fosse a mudança dela. Ela perigosamente se projeta e realiza em mim.

Por outro lado, há os que me vêem de maneira bem negativa, como uma ameaça. Há uma mulher no meu trabalho, com quem antes eu conversava com certa camaradagem - não demais, também, porque é uma pessoa muito fechada e arredia - que agora não vira nem a cabeça pra me olhar quando a cumprimento. Cada roupa nova com que apareço, cada elogio pra mim que ela entreouve no corredor, me dá a impressão de que ela vai cada vez me ignorar mais, até conseguir não me dirigir nenhuma palavra. Engraçado, porque é uma mulher que se veste bem, mas é tão de mal com a vida que ninguém olha pra ela.

Então, acho que não concordo totalmente com a coluna "Beleza paga" da Denise Gallo, que pode ser lida aqui. Apesar de ser contra essa indústria desenfreada do consumo que quer nos colocar a todas dentro de uma caixa da Barbie, eu acho saudável pra autoestima de qualquer pessoa ter uma roupa bacana, fazer um corte legal no cabelo, gostar de se gostar, enfim. Não acho perda de tempo ir à pedicure e fazer um tratamento de pele, mas acho perigoso querer se transformar na Angelina Jolie quando seu biotipo está mais pra Cláudia Rodrigues. Como tudo na vida, ponderação é a medida.

Em tempo, indico este blog aqui, Vigilantes da Autoestima, uma lição divertida de como se gostar mais.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Oásis

Eu tenho há alguns anos um sonho recorrente, com uma pessoa do passado. Todas as vezes que sonho com ele, porém, é um pouco diferente da vez anterior. Ele sempre adquire alguma característica da pessoa com que estive mais recentemente, acabando por se tornar um homem-amálgama de qualidades de todas as pessoas que já tive na vida. Quer dizer, quanto mais sonhos, mais príncipe encantado ele virava.

Antes eu acordava desses sonhos sentindo angústia pelo fato de saber que eu e esse cara do passado, apesar de meus desejos, nunca teríamos mais uma chance porque... porque não dá. Incompatibilidade total de objetivos, destinos completamente diversos. Hoje de manhã, porém, apesar de melancólica eu não me senti angustiada. E comecei a tentar descobrir a razão do repentino sossego em meu coração.

Entendi que é porque eu não só não o amo no presente, como eu estou aprendendo a deixar o passado efetivamente no passado. Sim, eu tive um ex maravilhoso. Sim, eu ainda sonho com ele. Sim, meu inconsciente o deseja (vá lá, uma parte do meu consciente também, e muito!) mas... se tivéssemos ficado juntos, teríamos sido felizes? Talvez eu tivesse cometido menos erros, talvez tivesse definido mais cedo meus objetivos na vida, mas... teria valido a pena? Não tenho como saber, jamais terei. E estou começando a me conformar com isso.

E então recentemente um outro encontro especial me ensinou que há na vida um tempo e espaço delimitado para cada experiência e, passada a experiência, o que deve sobreviver é a lembrança. Mas não uma lembrança que machuca, que angustia. O que eu tento conservar agora é uma lembrança de verdadeira afeição.

Num terreno tão árido como o dos relacionamentos, eu tive alguns oásis. E procuro me concentrar neles agora. É tão bom mudar de perspectiva e definir as experiências pelo lado bom, e não pelo lado doloroso! Vou continuar praticando!

Just a little affection on this cold and windy road... (Edguy - 'Save Me')

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Pequenos (grandes) prazeres relatados por bariátricos

Li essa lista no Twitter do meu cirurgião, foi elaborada por pacientes. Quase todas essas situações já aconteceram comigo, vou comentar as melhores:

1) Saber que a Saúde melhorou e a vida foi ampliada ( a melhor delas, sem dúvida!)

2) Descobrir alguns ossos (eu ADORO meus ossos da bacia! AMO!)

3) Dançar (e dançar junto então, sentindo o parceiro enlaçar sua cintura? Demais!)

4) Sentar no chão, cruzando as pernas.

5) Acompanhar outras pessoas nas caminhadas e, às vezes, até deixá-las para trás.

6) Fazer esportes de novo (ou pela primeira vez, e gostar disso!)

7) Gostar de movimentar-se. Pular da cadeira ao invés de se arrastar.

8) Sentir-se energizado.

9) Apertar o cinto de segurança do avião sem ter que pedir por uma extensão (é fantástico, o cinto sobra!)

10) Ser capaz de andar horas sem ficar "assado" (nem assado nem cansado!)

11) Não se sentir culpado ao se deleitar com uma comidinha diferente.

12) Não ficar pensando em comida (não o tempo todo, pelo menos!)

13) Não ficar apavorado com a reunião de pais-e- mestres .

14) Esquecer de não ter comido nada (acontece direto!!)

15) Ouvir seu marido dizer como você está bem (e seu pai, sua mãe, todos os seus amigos, até o porteiro do bloco do tio do vizinho!)

16) Brincar com as crianças lá fora.

17) Ouvir de um conhecido " eu ouvi você falar e sabia que era sua voz mas eu não reconheci você" (ou então seus amigos míopes não te reconhecerem mais à distância!)

18) Subir um lance de escadas sem ficar se abanando.

19) Ser capaz de entrar e sair de um carro com facilidade.

20) Sair à procura de uma festa (ir à todas as festas, isso é o melhor!)

21) Sair para jantar e pedir somente um tira-gosto (demais isso, pra gente, entrada é prato principal, e sobremesa não existe!)

22) Ter mais auto confiança.

23) Ser capaz de comprar uma calça jeans (e sem lycra, por favor! Hahaha!)

24) Ir a uma loja de roupas e ser bem atendido, ao invés de ser ignorado (o mundo é dos magros, infelizmente, e isso ainda me dá raiva. Não vou a lojas que tratam mal pessoas obesas, mesmo não sendo mais uma).

25) Não ficar com medo de experimentar uma roupa cuja etiqueta diz "tamanho único ".

26) Sentir-se confiante para batalhar um emprego ou enfrentar uma entrevista.

27) Não ter que tomar um monte de remédios todos os dias (isso é relativo, porque a gente passa a tomar um monte de vitaminas e suplementos, mas... tá na boa!)

28) Comprar roupas em qualquer loja.

29) Não ser a pessoa mais pesada na sala.

30) Passar o dia inteiro no parquinho com as crianças sem ter que parar a cada 15 minutos.

31) Ser capaz de cruzar as pernas ao se sentar (isso é bom demais! Tô obcecada pelo movimento, hahaha!).

31) Poder usar as roupas da sua prima ou amiga.

A lista, por mim, seria interminável! Mas eu acho que o resumo disso tudo é: se amar mais. Claro que existe muito desconforto, mas a lista seria incomparavelmente menor. Eu digo e repito a qualquer obeso que conheço: faça. Just do it.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Um ano

Michael Jackson morreu há um ano.

Diz a mídia que desde sua morte, a 'marca' Michael Jackson gerou dividendos que superam 1 bilhão de dólares. Isso já é mais do que o alcançado por Elvis e pelos Beatles. Dezenas de 'amigos', associados e até - surpresa! - familiares concentram-se em lançar livros, fotos e outras obras que prometem revelar o "verdadeiro Michael Jackson". Um museu foi inaugurado na Ásia, planeja-se um grande espetáculo do Cirque du Soleil, a gravadora se regozija com canções inéditas, suficientes para pelo menos três álbuns. Visto pela ótica dos cifrões (e um cifrão ambulante era o que ele representava para tantos advogados, acusadores, e um sem número de pessoas sem escrúpulos), Michael está mais vivo do que nunca.


De outro lado, o 'médico monstro' continua à solta, num processo que corre frouxamente, sem muita pressão nem das autoridades, nem da mídia. Os métodos totalmente questionáveis dos médicos todos com quem Michael e outras celebridades, como Brittany Murphy, se tratavam e de quem obtinham drogas também não são mais notícia, e nem sequer geraram uma investigação aprofundada por parte da polícia. Para as autoridades em geral, Michael está morto, fim de caso, voltem para suas casas, não há nada para ver aqui.


Um grupo muito menor (e nesse, me incluo) continua vendo a morte de Michael como um paradoxo. Fisicamente, sim, não contamos mais com sua existência. Mas, e a inspiração, o verdadeiro legado? Essa está cada dia mais presente.


Não vou me alongar sobre tudo o que Michael representou e continuará representando em minha vida, pois já falei disso aqui. Ele foi meu grande amigo, meu primeiro amor, meu conselheiro de juventude e meu fornecedor inconteste de inspiração e sonhos. Mas, recentemente, depois de sua morte, ele me deu mais, ele me deu coragem.


Desde o falecimento de Michael eu sofri uma grande transformação física e emocional, e um dos aspectos mais positivos dessa transformação foi a disposição de buscar maior contato com o que me é caro, com o que eu considero importante. Eu subitamente entendi (e não fácil ter essa compreensão) que a vida é curta, única e que as coisas que temos como certas simplesmente... não o são.


Tenho visto parentes envelhecerem, as crianças crescerem rápido demais, e o mundo girar numa velocidade que eu, pessoa jovem, tenho dificuldade de acompanhar. Tenho visto crueldade e catástrofe, nenhuma fé e gente sem destino certo. Mas agora, em vez de sentar e lamentar, eu ajo. Pelo menos por mim.


Não é exagero algum dizer que Michael, depois de tudo, ainda melhorou minha qualidade de vida. Hoje eu vou a mais lugares, conheço mais pessoas, arrisco mais, e me divirto infinitamente mais em grande parte devido ao fato de que eu sei que o que amo pode não estar mais lá amanhã. Tenho mais disposição e olho mais para o céu do que antes. Na maioria das vezes, não deixo mais as perguntas paradas, no ar: eu as faço. Mesmo que saiba que não vou gostar da resposta. Tenho mais sorrisos e bons-dias do que amuações. Deixo os dois vidros do carro abertos e não me preocupo se o vento vai desarrumar meu cabelo. Canto com a música, alto, e rio no meio do trânsito. Passo mais tempo com meus pais. Pego meus cães no colo e lhes beijo as orelhas. Escrevo aos meus primos que moram longe que os amo.


Depois de doze meses sem a presença física de Michael no mundo eu concluo que ele está bem vivo dentro de mim. E que alegria seu espírito não deve sentir ao constatar que o Rei do Pop fez tanto por seus súditos. Pode ser que nunca tenhamos conhecido o verdadeiro Homem no Espelho, mas seu reflexo continua brilhando sobre todos que entenderam sua mensagem.


Saudades, Michael, e obrigada.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Old habits die hard

Ainda me é muito penoso ser superficial nas minhas relações. Nasci e fui criada para ser cuidadora e desde muito cedo parecia que alguém estava me observando o tempo todo, me cobrando responsabilidade, julgando o que eu faço. Acho que isso dificultou demais minhas relações, eu sempre procuro um papel pra me encaixar: seja de conselheira, mãe substituta, provedora... como é pesado carregar o mundo (dos outros) nas costas!

Domingo, ao sair de onde fui ver o jogo, eu tive mais uma vez aquela vontade de dirigir sem destino até a gasolina acabar, tenho isso de vez em quando. Só queria me sentir livre. Havia tido uma ótima conversa com meus amigos, recebi muito reforço positivo e tenho uma série de motivos para estar orgulhosa de mim mesma, mas ainda assim eu queria algo. Não sei bem o que é esse algo, será paz interna? Depois de tantos anos de turbulência, será que me sinto perdida porque não há mais com quem eu deva me procupar, além de mim mesma? O que me afasta tanto desse olhar interno, será o hábito de estar sempre olhando pra fora?

Certo mesmo é que nunca foi tão grande a necessidade de estar sozinha. Eu já me livrei de de muitas "compulsões", como por exemplo comida e consumo, mas acho que ainda existe em mim resquícios de uma compulsão por afeto que torna a transformação pela qual estou passando um tantinho mais penosa. Realmente, as pessoas não estavam erradas quando me alertaram que a transformação física era o de menos.

De todo modo, acho que estou me saindo bem. Me vislumbro lá na frente, uma mulher inteira e curada, mais forte, mais centrada, com muito mais auto-controle. É essa imagem que me mantém firme nos momentos mais difíceis. Felizmente, é uma imagem minha. Um oásis de pensamento.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

De junho a junho

Foi exatamente ha um ano que cortei os ultimos lacos do relacionamento mais deleterio que ja tive na vida. De la para ca entrei numa espiral ascendente de mudancas e conquistas e, como nao poderia deixar de ser, fui colecionando licoes. Algumas delas eu ja queria ter colocado no "papel" antes e, especialmente agora, que esse blog esta sendo retomado, acho que lista-las seria uma boa pra minha quase-sempre-caotica organizacao interna. Vamos la:

1) Ame seu corpo. Sem tender a radicalismos naturebas ou cair na falacia do narcisismo exacerbado, cuide do que voce come, do tanto que bebe, da forma que se exercita, da qualidade e quantidade do seu sono. Fica bastante dificil controlar tudo isso junto; demanda tempo e - principalmente para as mulheres - um certo investimento, mas vale a pena demais. Eu que nunca fui uma pessoa de boa disposicao fisica, me sinto com 15 anos - e o melhor disso é ter a cabeca de 28 mesmo ;)

2) Passe a 'borracha' em que nao interessa. Cortar lacos de relacionamento afetivo, amizade ou (no meu caso) familiares que sao prejudiciais, nao somente se tornou necessario como quase compulsorio nos ultimos meses. Isso sem contar aquelas criaturas meio 'mosca de padaria' que ficam voejando em torno de voce, sem terem uma relacao definida, e que se aproveitam do que quer que seja de bom - ou ruim, tem gente tarada num sofrimento alheio! - que esteja lhe acontecendo. Como ja escrevi aqui, existe uma diferenca grande entre perdoar e esquecer. Sou absolutamente capaz do primeiro, e nem um pouco disposta para o segundo.

3) Realize seus desejos. Quantas vezes perdi oportunidades realmente legais de viajar, conhecer gente, fazer coisas diferentes, por simples 'moleza'. Nao sei se eu tinha medo do ridiculo (um ridiculo que so eu via!) ou vergonha de mim mesma, mas o fato é que nunca fazia nada muito fora da minha 'zona de conforto'. Agora, a primeira coisa que penso quando quero fazer algo é: "por que nao?". E o mais engracado foi descobrir que, afinal, meus desejos nao sao assim tao absurdos, ou vergonhosos.

4) Exercite a paciencia. No caso, trabalhar onde eu trabalho ja ajuda. Esse emprego tem me moldado ha quatro anos, e um pouco desse aprendizado ja foi incorporado a minha vida pessoal. So que agora estou aprendendo a ter paciencia comigo e a me cobrar menos, a ter menos pressa e pensar menos em resultados la na frente. O longo prazo perdeu um pouco do sentido e, consequentemente, a ansiedade diminuiu.

5) Divirta-se no processo. Acho que essa é a maior licao de todas. Relaciona-se com a diminuicao da ansiedade tambem. Nem tudo precisa ter um fim, um objetivo, um resultado, nem todas as gestalts precisam ser fechadas tipo "amanha-ou-eu-morro". As boas coisas levam tempo para se concretizar e, muitas vezes, é no processo que descobrimos que talvez tenhamos que mudar o plano.

Essas sao as linhas-mestras da minha transformacao. Tenho certeza de que é definitiva, me orgulho dela e acho que a viagem esta apenas comecando.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Welcome (back) To The Jungle!

Só o que não foi publicado é que não foi dito sobre Guns N’ Roses até hoje, de “a banda mais perigosa do mundo” até “cabide de empregos”, nos anos mais recentes. A brincadeira que eu tenho feito por esses dias de Guns no Brasil é que, com oito integrantes, bastaria Axl chamar dois percussionistas e estaria formada uma versão hard rock do Monobloco. :)
Foi com esse espírito, meio brincalhão e absolutamente incrédulo – afinal, estou em Brasília, e a nossa versão para “o dia de São Nunca” era “o dia em que o Guns N’ Roses vier tocar aqui” – que me dirigi ao Ginásio Nilson Nelson, também conhecido como O Vale dos Ecos, pra ver a banda do meu coração, a minha primeira e definitiva ligação com o rock.
Eu confesso que estava ressabiada. Depois de (no meu caso) sete anos esperando pelo lançamento de Chinese Democracy (um bom disco, mas não o melhor) e várias alterações na banda, eu não sabia se encontraria uma banda coesa, com o talento a que eu estava acostumada ou, como disse um não-simpatizante aqui da cidade, “Axl & Funcionários”.
Cheguei ao ginásio por volta das 18h30 e aquilo fervia. Não estamos acostumados a tanta gente junta por uma (boa) causa. As camisetas, bandeiras e bandanas estavam em meninos de dez anos e em homens de cinqüenta. Alguns cambistas anunciavam “compro ingresso”; tive que rir: que fã em sã consciência, a menos que estivesse, sei lá, com a mãe morrendo, venderia o seu?
Infelizmente – muito! – eu estava na pista comum. O ginásio é relativamente pequeno, e eu achei que minha visão não seria assim tãããão prejudicada. Mal eu sabia que ficaria de tal modo eufórica, que desejaria mais tarde ter visto o show pendurada na barra da calça de Axl – que ele reclamou o tempo todo que estava caindo, talvez por força do meu pensamento!
Às 20h30, numa pontualidade surpreendente, entrou a “pré-abertura”, uma banda local de metal progressivo chamada Khallice. Vou me abster de maiores comentários mas, para que se tenha uma idéia, na terceira música já se comentava que a banda poderia trocar de nome e se chamar Cale-se. Daí vocês tiram.
Por volta de 21h15, Sebastian Bach deu o ar de sua (muita) graça. Com as pernas longuíssimas dentro de calças de couro (hhmmmmm!!) e o cabelo louro esvoaçante, cumprimentou o público e disparou a falar em português entre as músicas. De “boa noite, Brasília!” a “Hoje Brasília vai ser a capital do rock n’ roll !!!”, o empolgado e simpaticíssimo Bach lembrou um pouco o Axl do RIR3, tamanho o fuzuê que fez com a platéia. Em termos musicais, não sei o que ele fez para conservar a mesma voz de 20 anos atrás, mas, seja o que for, se fosse ele, eu engarrafava o segredo e vendia, porque dá certo!
Eu conheço muito pouco de seu repertório novo – e ele hoje canta bem mais heavy metal do que no passado – então só “tirei o pé do chão”, como ele mesmo pediu, nas clássicas 18 And A Life, Monkey Business e na suprema e inigualável I Remember You; na qual não só tirei o corpo todo do chão como quase o esvaziei de alma também, de tanto que chorei ao ouvir uma das músicas que mais gosto na vida executada ao vivo, pelo artista original, e com uma perfeição embasbacante.
Depois do show do Bach eu sabia que a espera seria longa. Eu não contava era com o arrastão – sim, lembram da moda no RJ, de roubos disparados na multidão? – pois é, ele mesmo. Acabei sendo “levada” para ainda mais longe do palco. Felizmente, não me machuquei nem fui roubada.
Depois de um senta (no chão) - e - levanta de quase duas horas, de uma parte do público vaiar (não entendi, ninguém conhece os atrasos do Axl não?) , do cansaço se apossar do meu corpo e de observar o surgimento “mágico” (de onde saiu aquele palco monstro?) das toneladas de equipamentos, finalmente Chinese Democracy World Tour começou em Brasília, mais ou menos às 00h15.
A primeira figura que se vê é Ashba, sua sombra contra um fundo amarelo. O cenário é maravilhoso, uma produção que me surpreendeu. Acima do palco de dois níveis, bateria no centro, há três telões e quatro colunas de laser onde brilham caracteres chineses, jogos de luz e clipes que se revezam e se fundem; além de colunas de fogos, fogos de artifício, explosões, tudo ressoando numa altura e num alcance que a mera visão dos reflexos coloridos fazia o público todo ficar espantado feito criança. O teto se ilumina de vários tons. Diante da grandiosidade, meu olhos se encheram de lágrimas só por estar ali; toda a produção parecia uma gigante festa surpresa.
Chinese Democracy é a primeira música. Olhando em volta, percebi espantada que praticamente só eu sabia a letra. Acho uma das melhores do disco, então cantei como se o show fosse acabar ali. Mas, como eu escrevi anos atrás, nada se compara com a sensação de fim do mundo, de maravilhoso caos, de bomba atômica que é Welcome To The Jungle. Quando eu ouvi aquela voz rouca e metálica berrar “Do you know where the fuck you aaaaaare??” eu posso ter me elevado uns dois metros do chão, pelo pulo que dei. Não podia acreditar que eu estava ali. Não eu. Não depois desses anos todos. Não podia ser Axl Rose. Mais uma vez, chorei (enquanto pulava!).
Em It’s So Easy, DJAshba já começava a mostrar a que veio, e também sua boa interação com Axl, que até esta altura não foi reconhecido pelos meus olhos como estando, de fato, ali. Parecia um boneco que canta, como assim ele veio na minha cidade? As pessoas podem falar o que quiserem de Axl Rose, provavelmente com razão, mas ele é como carne vermelha: todo mundo critica, mas se aparecer na sua frente, você quer roer até o osso. O ginásio delirava com a mera visão do cara, poucos artistas promovem a histeria que ele causa só por estarem presentes. Alguém jogou uma bandeira do Brasil, Axl a pegou, rodou, pôs no ombro. O público baba e se esgoela.
Então ele fez famosa dancinha em Mr. Brownstone. Não me lembro se foi nessa hora, mas alguém da platéia VIP lhe jogou um baseado. Axl pegou, pôs na boca, sentiu o gosto e disse: “Huuummm, thanks, man!”. Risadas gerais, foi a primeira vez que ele interagiu “de verdade” com a platéia.
Em seguida, uma interpretação estranha de Sorry, mais falada do que cantada. Mais tarde, os jornalistas presentes – descobri que a imprensa não manda repórteres pra esses shows, manda odiadores, deve ser pra punir os maus funcionários! – dirão que Axl estava “sem voz” (uma crítica velha, aliás, porque não escrevem que ele está barrigudinho? Pelo menos isso é verdade!). Há opiniões divergentes entre o público. A platéia VIP conseguia ouvir Axl respirar. Na pista, de fato, os graves estavam saindo prejudicados. Na arquibancada, os efeitos sonoros saíam tão altos que muita gente declarou não tê-lo ouvido em boa parte das músicas. Considerando que a acústica do ginásio, apesar do bom equipamento, é uma bosta, não se pode chegar a uma unanimidade. Minha opinião é que, ao contrário de Sebastian Bach, Axl não preservou em todos os aspectos a voz do “antigo” Guns N’ Roses, e não há nada de surpreendente nisso. Um homem tem 48 anos e bebeu, fumou e usou quase todo tipo de substância lícita e ilícita conhecidas, além de ter tido um bom hiato de anos sem cantar com freqüência, Axl está como se esperaria de alguém que levou a vida como ele. Porém seus agudos, drives e modulações de voz estão absolutamente preservados: disso, ninguém pode dizer o contrário. Bach, de fato, é um fenômeno, porque viveu quase do mesmo jeito e teve a voz preservada.
Praticamente sozinha, de novo, me animei com Better, que também acho muito boa. Em seguida, Fortus entra pro solo e... como ele é glam, não? A cara do Joe Perry do Aerosmith, alguém precisa dizer isso pra ele! :) Live And Let Die é acompanhada de muitas explosões, e meu corpo felizmente ainda agüenta pular. O de Axl agüenta correr de um lado pro outro, várias e várias vezes. Barrigudo, mas em forma! :)
A performance de If The World me soou meio desafinada, mas os instrumentos estão perfeitos. É uma música muito gostosa, adoro a linha do baixo. Por falar em baixo, Tommy Stinson traz a mesma competência e menos lápis de olho do que usou no RIR3. :) Também vai muito bem nos vocais, mas achei-o mais contido no palco do que quando ele havia recém-começado na banda.
Foi tão bom ouvir Rocket Queen ao vivo! Tem gosto de adolescência, minha fase inicial de fã. Nos telões, um desfile de mulheres de silhueta atraente. Então, Dizzy ao piano, um solo lindo, emendado com o início de Street Of Dreams, de novo uma do meu coração. Pra quê eu fui parar de pular? Agora, o cansaço bateu mesmo. De certa forma é bom, me recupero encostada na mureta da mesa de som, cantando – sozinha – aquela letra inspirada.
Eu, particularmente, não gosto muito de Scraped. Tudo bem que é animadinha e tal, mas, fora o refrão, nunca me liguei muito nela. Aproveitei pra olhar o ginásio, repleto. Como já diziam: “sonho que se sonha junto é realidade”, então nesse momento eu fui me dar conta que havia outras milhares pessoas ali, e que pelo menos a maior parte delas devia estar se sentido realizada. Ri bobamente, sozinha, e pensei: “cara(lho!), como estou feliz!”
Nessas divagações, quase perdi o início do solo do lindo, maravilhoso, vitaminado, salve, salve DJAshba. Ashba é um caso à parte no Guns. Seu carisma, animação, a forma como interage com o público, são só a cereja no enorme bolo de talento que ele tem. Com perdão dos saudosistas, se eu não estivesse olhando, acharia que Slash estava escondido em algum lugar no palco. Ashba é perfeito, e é melhor que Buckethead. Se é verdade que essa banda é “Axl & Funcionários”, pelo menos Axl sabe contratar os caras certos. Ashba não pára! Pede palmas, deixa o público agarrá-lo, joga palheta, chapéu, garrafas d’água (chegou mesmo a buscar água pra quem pediu!), conversa com o público, se joga na galera – literalmente, ele deu o jump de costas! Em termos de simpatia e espontaneidade, ele é tudo o que Axl não é. Minha impressão era que a gente ia sair de lá dando carona pra ele até o hotel. ;)
Quando Axl sentou ao piano, instalou-se uma atmosfera elétrica no ginásio, e todos sabiam o que viria a seguir. De surpresa, então, a banda mandou um mini-cover de The Wall, do Pink Floyd, com Axl nos vocais, acompanhado em coro frenético pela platéia. Eu descobri a Grande Contemplação quando percebi que era inútil tentar cantar algumas músicas. Eu estava tão emocionada, tão emocionada, mas tããããão emocionada, que minha vida parecia ter se esvaído pelo pé. Eu balbuciava as palavras e, escorada na muretinha amiga, esperava que Deus me levasse, porque eu estava pronta. Eu tinha ouvido Sweet Child O’ Mine (execução perfeita!!!) e November Rain ao vivo. Sweet Child O’ Mine ultrapassou a categoria de música e alcançou a de hino, e nessa hora Ashba mostra porque foi tantas vezes eleito o melhor guitarrista do mundo. Em November Rain, Axl está ao piano branco, cai uma chuva de fogos de artifício, e rola a clássica “paradinha” antes do final. Creio que descobri ali o sentido da vida. :)
Eu estava muito cansada – ou muito em êxtase – pra pular em You Could Be Mine (que Axl ironicamente anunciou como “uma música de amor”), mas não para reconhecer que Frank Ferrer é um puta baterista – e era nessa música mesmo que ele tinha que mostrar serviço. O solo de Bumblefoot, meu guitarrista mais querido da banda, é o tema da Pantera Cor-de-Rosa. O público adora, o cara é mesmo divertido!
Quando Axl entrou, de chapéu branco, pra cantar Knockin’ On Heaven’s Door, o amigo que estava comigo disse, falando sério: “Que susto! Pensei que fosse o Geraldo Azevedo!”. Aí acabou a música pra mim, porque era eu olhar pro Axl e disparar numa crise de riso. Arruinou a beleza do momento! :D
Taí, eu não gosto mesmo de Slacker’s Revenge. Acho um som muito “sujo” pros padrões do Guns. Passo por ela sem comentar. Patience também me desagradou, o Ashba fez umas mudanças no arranjo, e pra mim a música deveria ser imutável.
Fiquei surpresa ao ouvir Nightrain, pensei que seria My Michelle. Gosto demais de Nightrain, e ali dei a pulada final que meu corpo agüentava. Encerramento. Obrigado e boa noite. Claro que quase ninguém arredou pé, e logo Axl estava de volta com Madagascar, pra mim a pérola de Chinese Democracy. Que arranjos, que letra! Ela é a Estranged dos dias de hoje.
Quando vi que o final estava chegando, desesperei. Deu vontade de sair correndo e pular em todo mundo. Me juntei a alguns amigos mais na frente e pulei louca e alucinadamente em Paradise City. Tive não sei saída de onde a energia do início do show. Chorei de novo. Mais uma vez, o mundo acabando. A platéia VIP então desenrolou a bandeira de 5 metros de comprimento que fizeram em homenagem a banda, e que cobria todos os fãs daquela área. Axl, espantado, parou de cantar um momento e mandou um “Holy Shit!” engraçadíssimo. Ele sorriu e chamou Ashba. Todos os músicos ficaram sorrindo, bobos. Enquanto a bandeira terminava de se desdobrar, caiu a chuva de papel picado. Parecia uma cena final de filme. Meio engasgado, Axl agradeceu, disse que demorou muito pra voltar ao Brasil. Era visível que ele estava emocionado, mas estava segurando a onda. Disse, então, mega-irônico, que se desculpava por ter nos mantido a nós, “crianças”, acordadas até tão tarde. “Sei que vocês têm um grande dia na escola amanhã!”. Ah, Axl, Axl...